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Para além do Tejo, à conversa com o Miguel Seabra
Por Ainhoa Vidal e Sofia Neuparth

Já há uns tempos que tínhamos proposto ao Miguel Seabra arranjar um lugar mais alargado para trabalharmos juntos. A sua forma especial de ouvir o corpo, a presença, a intensidade das relações que estabelece com o espaço e com as pessoas, fascina-me profundamente.

Queríamos mais do que um workshop de uma semana, algo que nos permitisse cruzar experiências…

”2007 é já amanhã!” foi a despedida deste encontro tão simpático em que conversámos à sombra de chá e bolinhos e vimos atentamente o documentário “Para além do Tejo”, um registo documental do processo de construção do espectáculo com o mesmo nome que o Teatro Meridional criou a convite de Madalena Vitorino e Giacomo Salisi – CCB e que recebeu o Prémio Nacional da Crítica 2004 da A.P.C.T.

O Teatro Meridional surgiu em 1999 e foi até 2000 uma companhia ibérica. Foi então que fizeram uma espécie de “Tratado de Tordesilhas” e se abriram em duas propostas, de facto existe em Espanha uma companhia com o mesmo nome…o Miguel Seabra ficou por cá: “A realidade espanhola é muito diferente, a azáfama de espectáculos que eles têm não se compara à nossa…têm uma rede de circulação que nós não temos…”

As linhas de trabalho do “nosso” Meridional passam pela Lusofonia (adaptação de textos moçambicanos, angolanos, portugueses), pelo Teatro de Absurdo (estão agora trabalhar Becket) e pelo Teatro Gestual, onde se insere este “Para Além do Tejo”.

“Para além do Tejo”- contou-nos o Miguel– é um espectáculo que não usa a palavra como principal veículo de comunicação.”

O processo de construção demorou um ano, de Outubro de 2003 a Outubro de 2004, com algumas interrupções, mas sempre com uma intensidade e uma qualidade inegáveis.

“Acho este documentário interessante exactamente porque mostra realmente o processo de trabalho. Normalmente não se fazem documentários sobre processos - comentava o Miguel - a Patrícia Poção, a realizadora que faz parte da equipe de imagem do Meridional, esteve connosco o tempo todo, gravou 40 horas e o primeiro registo que me apresentou tinha 4 horas, pedi-lhe para reduzir e chegámos às duas horas e meia…mesmo sendo muito difícil seleccionar o que poderia ficar ou sair pedi-lhe ainda para cortar uma hora…agora o documentário tem 1 hora e 24 e ainda acho que tem 5 minutos a mais…de qualquer forma todos os ensaios estão registados no computador, a Carla Maciel gravou tudo!.”

Do processo constaram quatro workshops que possibilitaram que todos se conhecessem e arranjassem um “denominador comum”. Trabalharam Técnica da Máscara, Teatro Gestual, Tai Chi para além de um laboratório orientado pelo próprio Miguel Seabra. A coesão da equipa e a qualidade de movimento dos actores imprimiu ao espectáculo um nível de excelência inquestionável. Segundo o Nicolau dos Mares, que esteve presente na conversa, “é dos melhores espectáculos a nível mundial. A qualidade técnica em cena é fabulosa!”

Quando perguntei ao Miguel como abordava o trabalho de corpo com os actores ele salientou a importância das colaborações com todos aqueles que cruzavam os workshops introdutórios mas que, de uma forma global, ele acompanhava o actor durante todo o percurso:”o mais importante no meu trabalho é o elemento humano e vivo. Uma das características do Meridional é o despojamento cénico. Acredito que o actor é capaz de contar a história toda com o corpo e a voz…eu trabalho com ondas de pulsação, de vibração. Trabalhar com o público é criar uma ligação vibracional. Muitas vezes o uso da palavra é tão mental que não sai do palco, não vibra…”

Contou-nos ainda que certa vez ficou sem luz durante um ensaio e que, tendo continuado a cena às escuras, se apercebeu da riqueza de escutar a presença do actor, atento à sinceridade da sua voz, do eco do seu estar.

“No aquecimento para o espectáculo trabalho sempre uma cena. A peça tem que crescer, que respirar e que falhar…normalmente os espectáculos crescem para os lados, engordam…eu acho que devem crescer para cima!”

Durante o documentário os actores não cessam de elogiar a qualidade do caminho que percorreram para criar a peça…para eles toda a construção foi de facto uma valiosa experiência de formação enquanto pessoas e profissionais.

Segundo o Miguel “Para Além do Tejo” levantou a questão: “Como falar de um universo tão conhecido sem passar pelo cliché?”…. é que o Alentejo é mesmo aqui ao lado….restaurantes, anedotas…vivemos com muitas referências do Alentejo…Mas agora há um novo desafio “na calha”: um novo projecto para Trás os Montes!”

Mais três dedos de conversa e acabámos por fechar as luzes para ver o documentário…a preto e branco passa um galo e uma velhota comenta “e já nada é como era…”

Vale a pena!



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