c.e.m

Historial

apontamentos sobre uma possível história do c.e.m

O desenho de uma estrutura alternativa que cruzasse linguagens artísticas e cientificas dedicada à experimentação, à formação e à criação começou a ser discutido no final dos anos 80. Nessa altura o percurso de uma série de pessoas, em início de carreira profissional, sugeria a introdução de dinâmicas sensíveis à transformação inerente à criação contemporânea. Estavam reunidas as condições para a viabilização de um projecto como o c.e.m – centro em movimento. A discussão, o estudo de diversas formas de funcionamento implementadas noutros países, a contextualização nas questões então emergentes sobre cruzamento, horizontalidade ou “bottom up procedures” contribuíram para confirmar a necessidade de uma organização em forma de sistema aberto.

O c.e.m começa a desenhar-se no início dos anos 90, tendo habitado várias zonas de Lisboa. Encontra-se presentemente na Rua dos Fanqueiros. A especificidade de cada lugar é sempre incorporada naquilo que o c.e.m faz.

Ao longo deste percurso destacamos actividades que foram marcantes na forma como contribuíram para clarificar os conteúdos que trabalhamos:

– Em 1990 começámos a ajuntar práticas de corpo abertas a quem quisesse experimentar movimento.

– Em 1992 abrimos um espaço semanal regular de investigação, para aprofundar matérias trabalhadas nas aulas contínuas de trabalho de corpo.

– Em 1993, criámos o Espaço Experimental, um espaço quinzenal para apresentação/comunicação e feedback de questões emergentes da criação/experimentação.

– A partir de 1996, a Formação/Investigação Artística, orientada por Sofia Neuparth, abriu a outros profissionais e áreas artísticas como o som, fotografia, cinema e teoria crítica contemporânea.

– Em 1998 formalizámo-nos enquanto associação sem fins lucrativos.

– Em 1999 o interesse pela movimentação de perspectivas e áreas do Conhecimento levou à implementação dos programas 100 horas de conversa  (espaço mensal para conversas abertas sobre Arte, Ciência e Sociedade) e Futuro a 100% (workshops e debates para repensar a Cultura na era das novas tecnologias) o que abriu grandemente o painel de colaboradores e financiadores. Demos início aos Blups, uma atenção exercitada em relação a um conjunto de artistas que estavam em formação continuada no c.e.m.

– Em 2000 iniciámos um investimento na produção de acções complexas que exigem uma constante reformulação da dramaturgia da programação. Foi disto exemplo o Festival Sem Autor que, tendo “invadido” o Teatro Trindade durante 3 dias, possibilitou a circulação de centenas de pessoas interessadas na questão da autoria e curiosas com os trabalhos de diversos criadores que se implicaram na apresentação anónima de intervenções artísticas, conversas públicas e discussões “um a um”. Iniciámos programas de investigação desenhados especificamente com cada criador/investigador em formação: Zona Z.

– Em 2001 apurámos o trabalho de corpo no sentido de sistematizar a relação continuada com pessoas em diversos contextos humanos e sociais (necessidades especiais, idosos, bebés, crianças…). Abrimos o cem-dramaturgias coordenado por Patrícia Portela, um laboratório piloto intensivo em artes performativas.
– A partir de 2003 começámos a investir no acompanhamento à criação/produção dos primeiros trabalhos de artistas em início de carreira nas áreas da dança, instalação, vídeo, teatro e artes sonoras. Iniciámos uma colaboração de 8 anos com o Fórum Dança na realização do fcverão, um curso internacional de artes performativas.

– Em 2004, caiu o tecto do espaço que habitávamos nos bombeiros da praça da Alegria e, depois de mais de um mês trabalhando por entre poeiras e chãos levantados fizemos uma mudormance-mudança performativa em que uma centena de pessoas trouxeram a pé o que tínhamos para o novo lugar da rua dos fanqueiros. Também neste ano, dando expressão à necessidade de reflexão/acção política cultural, co-fundámos a REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea (o c.e.m esteve na REDE durante 08 anos, dos quais 05 anos fez parte da direcção).

– Em 2005, o arrendamento de um novo espaço bem como a atribuição do apoio sustentado por parte do Ministério da Cultura acelerou a evolução da estrutura em particular na área da Investigação/Formação artística: acompanhamento de percursos individuais, Estágios de Criação, Estágios de Formação e FIA – Formação Intensiva Acompanhada-um programa internacional de Investigação Artística. A problemática Corpo/Cidade precipitou o arranque do projecto de arte relacional Pedras d’Água.

– Em 2006, a partir do desenvolvimento da relação com a cidade materializaram-se linhas de acção no encontro com populações estigmatizadas, delineando projectos de abordagens mais específicas como o IR (mulheres em contexto de prostituição) e o Pau de Arara (pessoas imigrantes). Realizámos a primeira edição do Festival Urbano Pedras d’Água.

– Em 2007 realizámos o projecto site-specific Memória – Relva no Camões e publicámos a revista Per()to, uma auscultação ao que move uma série de artistas e outros pensadores contemporâneos que colaboram com o cem. A Per()to inicia um processo de investigação em torno da  documentação na contemporaneidade.

– Em 2008, sistematizámos o projecto de Formação Artística Contínua O Corpo na Escola, realizado no interior das estruturas de ensino básico e pré-escolar, em colaboração com o CENTA- Centro de Novas tendências Artísticas. Este foi o ano em que inaugurámos uma relação de parceria com pensadores do Corpo e da Filosofia do Brasil pela mão de Christine Greiner tendo integrado na programação do festival Pedras d’Água encontros e conversas com esta pesquisadora da PUC ao lado de Jorge Albuquerque Vieira bem como do professor Bragança de Miranda. Entre outras criações realizámos o documentário “Do corpo à palavra“, de Mariana Lemos, Luciana Fina e Bruno Cabral.

– Em 2009 reforçámos a relação com a área de Estudos do Corpo da PUC de São Paulo passando a integrar no acompanhamento à investigação/criação e realização do Festival Pedras d’Água, investigadores especialistas no sentido de apurar a acção e afinar o discurso emergente. Realizámos a Conferencia “o Corpo e as Novas Comunidades- Palimpsestos Urbanos” com Kuniichi Uno, José Gil, Peter Pál Pelbart e Christine Greiner,na Culturgest. Entre outras criações apresentámos o documentário “No hia ma” de Alex Campos-Olhares Nomadas, no Festival Doc Lisboa.

– Em 2010, no seu 5º ano de existência, o Pedras d’Água (enquanto trabalho contínuo nos bairros de Lisboa) possibilitou a publicação Pessoas e Lugares que identifica a especificidade da nossa abordagem junto das realidades que encontramos.  Clarificou-se a essência do Festival Urbano Pedras d’Água enquanto programação “adisciplinar” que traz lado a lado mostras de vídeo e bailes, conversas e laboratórios, conferências e visitas guiadas pela cidade em torno da comunicação dos acontecimentos artísticos resultantes do trabalho com as Pessoas e os Lugares. Demos início aos Microbailes, ajuntamentos festivos itinerantes que deslocam moradores e transeuntes por ruas e praças próximas. Realizámos o projecto de intergeracional “TOCA“. Sistematizámos o trabalho continuado com a população idosa nos bairros da Mouraria e Intendente “Ruga“. Entre outras criações e integrados na programação do festival publicámos o livro de Sofia Neuparth “práticas para ver o invisível e guardar segredo“e apresentámos a criação de Paula Petreca “projecto co”. Realizámos a Conferência “Corpo e Politica, a arte de estar com pessoas e lugares“, com Graeme Miller, Christine Greiner, Helena Katz e Bragança de Miranda, na Culturgest.

– Em 2011 publicámos, no âmbito do programa Pedras d’Água, o livro “Arte Agora-pensamentos enraizados na experiencia”com a orientação de Christine Greiner e Sofia Neuparth e realizámos a exposição da documentação “O Lugar Das Pessoas” e, entre outras criações, apresentámos o solo de Lyncoln Diniz “Beco do jasmim” e “58 passos até entrar na vila” de Ibon Salvador e Luciana Chieregati. Demos início ao programa de formação na área dos estudos do corpo e do movimento “Corpo Zero“. Concretizámos um espaço de encontro e residências artísticas em Lisboa, o “Seu Vicente“. Apresentámos “1 ou 2 contentamentos comedidos” no teatro do Bairro, um convite de Sofia Neuparth com Margarida Agostinho, Luz da Camara, Mariana Lemos, Ibon Salvador, Luciana Chieregati, Augusto Ribeiro, Cristina Vilhena, Lyncoln Diniz, Amália Sagreiro Vaz Realizámos a Conferência/Demonstração “Material for the Spine” com Steve Paxton, na Culturgest. Participámos como convidados na conferência “Em nome das artes ou em nome dos públicos”, na Culturgest. Apresentámos o documentário “No hia ma” no Krakow International Film Festival bem como o “O terceiro olhar” também de Alex Campos-Olhares Nomadas, no Festival Panorama- Mostra de Documentário Português.

– Em 2012 Helena Katz deslocou-se ao cem para um acompanhamento próximo do trabalho com pessoas e lugares. Na sequência do trabalho continuado “Corpo na Escola” publicámos o livro em colaboração com a Escola da Madalena “Ler, ver, mexer, faz a coisa acontecer“. Investimos na criação de um ajuntamento de profissionais para criação, “Pátio- Como viver juntos mais que um?“. Participámos na conferência “Arts and the economic crisis”, na Gulbenkian. Iniciámos uma colaboração com a stress-fm na produção de um programa semanal de rádio comunitária “pedras”. Apresentámos, integrada na programação do Festival Pedras (d’Água), a Documentação Pessoas e Lugares com rádio ao vivo bem como criações de Diana Kubicz, Valentina Parravicini ou Alban Hall.

– Em 2013 na sequência do trabalho continuado “Corpo na Escola” publicámos o livro em colaboração com a Escola da Madalena “9-9A As Histórias de Um Buraco ou as Aventuras de um Prédio Interrompido“. Publicámos também o livro “Pedras12-Pessoas e Lugares de Lisboa“. Trouxemos mais uma criação do “Pátio“, desta vez ao Roundabout, com o título “Estás aí em cima? Agarra-te ao nariz que eu vou levar o escadote”e realizámos ao longo do ano uma série de conferências e conversas em espaços convencionais e em espaços alternativos (nomeadamente praças) com profissionais de diversas áreas do conhecimento como por exemplo ““Estética Ambiental – obras e experiências extremas” com Mario Perniola e Kristine Hognerud Træland, na Culturgest, e “Porque não nos revoltamos?” com Boaventura Sousa Santos no Largo de São Domingos, ambas integradas na 8ª edição do Festival Pedras

– Em 2014 o “Corpo na Escola” reconfigurou-se enquanto práticas de linguagem com crianças não autóctones e os encontros na Creche intensificaram-se. O Pátio apresentou-se na Music Box com “Estratégia infalível para ver se isto resulta”. Publicámos o livro de Sofia Neuparth “movimento” e o livro Pedras 13-Pessoas e Lugares de Lisboa. A temporada foi atravessada por profissionais de áreas desde a geografia crítica, à filosofia, à educação, ao activismo como Ana Estevens, Maria Filomena Molder, Jorge Ramos do Ó ou Sérgio Vitorino. A 9ª edição do Festival Pedras foi apresentada enquanto “O Futuro Foi Assim” com uma primeira abordagem, em Julho, nos espaços da cidade e uma segunda, em Setembro, no teatro São Luis enquanto exposição de documentação em diversos suportes e uma conversa pública com Anselm Jappe com a participação de Fernando Ramalho (Unipop). “O Futuro Foi Assim” teve como característica fundamental a integração dos músicos Gaiteiros do Asfalto em todo o processo de investigação com pessoas e lugares desde Janeiro tendo resultado numa composição original apresentada no Bailão na Baixa Pombalina. Entre outras criações apresentámos “In” de Valentina Parravicini e “perto”de Mariana Viana.

– 2015 foi o ano de “A Arte de Caber Em Toda a Parte” em que a nona edição do festival trouxe 3 publicações: o Pedras 14 “O Futuro Foi Assim”, “Casa Forra” de Margarida Agostinho e “Cidade Desassossegada” organizado por Sofia Neuparth e Ana Estevens em colaboração com Le Monde Diplomatique. Destacamos entre a programação do festival o “Encontro de bébés” e os programas de rádio na rua, e entre outras criações, trabalhos do colectivo de Curitiba “Filhas da Fruta” e “letras em dança” de Erika Kobayashi.  Levámos o Pátio- Como viver juntos mais que um, com música original ao vivo de Bruno de Azevedo, ao Porto (Companhia Instável) e a Madrid (La Tabacalera).

– 2016 dedicámo-nos ao estudo da “Casa”, apresentámos trabalho no festival Notafe (Estónia).  Levámos o Pátio- Como viver juntos mais que um, com música original ao vivo de Bruno de Azevedo, às jornadas Llansolianas a convite de João Barrento “O que pode um corpo”. Peter Michael Dietz e Sofia Neuparth deslocaram-se ao Brasil em temporadas distintas alargadas para práticas de formação e apresentação de trabalhos.

– 2017 está a ser o ano das estreias do “Sopro” (dança) e do “Away” (música), o trabalho com a cidade de Lisboa intensificou-se e a documentação entre-cidades, com colaboração de vários lugares do Brasil, Argentina e Europa tornou-se mais presente. O programa de Investigação nos estudos do Corpo e do Movimento (f.i.a-formação intensiva acompanhada) apurou-se no alargamento do tempo de práticas com pessoas e lugares (“DEMORA”) e abrimos um novo programa intensivo “O Risco da Dança”. O festival anual tomou o nome de “Manual de Estar!